| Teatro e o cérebro na era digital |
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| Ter, 02 de Fevereiro de 2010 16:50 |
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Há 10 anos ministro aulas de teatro para pessoas acima de 13 anos. Nesse período dirigi mais de 60 espetáculos o que me proporcionou uma convivência constante e minuciosa com adolescentes e adultos das mais variadas classes sociais e culturais. É fato que a matéria prima do teatro é o ser humano e suas relações com os outros e com o mundo. Nos últimos cinco anos tenho notado, principalmente nos adolescentes, que a capacidade de estar pleno e focado no momento presente em qualquer atividade, seja exercício de consciência corporal, seja de integração ou criatividade está sofrendo uma queda de rendimento considerável.
Olhar para si mesmo e tentar enxergar a diferença "do quem eu sou", para "o que eu mostro que sou" ou ainda para "o que eu penso que sou" requer trabalho de auto-observação, concentração e disciplina. Observar os outros, trocar sensações, apurar as percepções, revelar emoções, são ingredientes essenciais para a formação de um ator ou de um bom comunicador e sinto, semestre a semestre, a necessidade de modificar os mecanismos que antes revelavam e ajudavam a desarmar as defesas dos aspirantes a atores. A bagagem de memórias corporais ou emocionais infantis são tão embutidas, tão solitárias, simplesmente inacessíveis. Optando pelo caminho da atitude, a resposta também é intangível, a maioria está sendo treinada para reagir com desconfiança a qualquer coisa que lhes tire da zona de conforto. Não há iniciativa nem curiosidade real. Eles acreditam e se ocupam do mundo virtual, e tem imensa dificuldade em usar a imaginação. Tomando isso como desafio, tenho conseguido ótimos resultados a cada final de semestre, pois de alguma forma o teatro consegue tocá-los. Estava eu a analisar essas minhas observações, quando encontrei no blog de Maria Helena Kühner esse trecho esclarecedor da neuro-cientista, Susan Greenfield.
“Estaria a revolução digital modificando nossa maneira de pensar?” “... a neurociência prova que o cérebro muda constantemente, dependendo daquilo que percebe e de como o corpo (re)age. E o mundo vitual está, sim, mudando muito, sobretudo os jovens. Como? Porque seu campo ou foco de atenção se torna menor, mais estreito e auto-referencial. Porque é um mundo de fatos e informações “empacotados”, de frases cada vez mais breves, de afirmações cada vez mais superficiais e simplificadas, onde o subtexto, a ironia, a metáfora, a fundamentação podem perder, e perdem muito. Porque estimula a despreocupação com as consequências, já que nele todas as coisas são reversíveis. Porque gera uma falta de empatia, pela redução da capacidade de ver e compreender o outro. Porque atinge também a identidade: se pensamentos e sentimentos pessoais são expostos na internet, para qualquer um ver, anulam-se os fronteiras entre o mundo interior e o exterior; porém, até por inconsciente autodefesa, para não se expor em demasia ou sujeitar-se a reações e críticas indesejadas, as expressões se tornam superficiais ( um exemplo é o recorrente “eu te amo” que, ora banalizado em todas as conversas, deixa de expressar um sentimento mais profundo e passa a jargão mecânico, repetitivo e vazio…) Com isso, narrativas que abrangem toda uma vida se vêm reduzidas a uma corrente infinita de pensamentos “bits” nos quais até mesmo escritores dos mais inteligentes acabam “twittering” um amontoado de banalidades. O perigo maior, e este, sim, preocupante, é que essas mudanças podem dificultar as escolhas e decisões a longo prazo, gerar uma incapacidade de entender, e aprender, com situações, assuntos complexos e desafios maiores, crises e rupturas, para os quais precisamos de tempo e espaço de reflexão e ação. Os exemplo, multiplicáveis, estão em torno de nós.”
Cada vez mais acho o teatro essencial para o desenvolvimento humano. A relação do ator com a platéia desde sempre nos propicia sentir e refletir, nos permite um olhar crítico ou cúmplice diante do que vemos. |



“Estaria a revolução digital modificando nossa maneira de pensar?”